Arthur A. Schomburg
O Negro Desenterra o Seu Passado
Arthur A. Schomburg
O Negro¹ americano precisa refazer o seu passado para poder construir o seu futuro. Embora seja ortodoxo pensar na América como o único país onde é desnecessário ter um passado, aquilo que é um luxo para a nação como um todo torna-se uma necessidade social primordial para o Negro. Para ele, uma tradição de grupo deve compensar a perseguição, e o orgulho de raça deve ser o antídoto para o preconceito. A história deve restituir aquilo que a escravidão tomou, pois é o dano social da escravidão que as gerações presentes devem reparar e compensar. Assim, entre os milhões democráticos que hoje se levantam, encontramos o Negro pensando de forma mais coletiva, mais retrospectiva do que os demais, e propenso, pela própria pressão do presente, a tornar-se o mais entusiástico antiquário de todos.
Evidências reivindicativas de realização individual têm, de fato, sido reunidas e preservadas ao longo de mais de um século: o livro de espírito liberal do Abade Grégoire sobre notáveis Negros, de 1808, foi o esforço pioneiro; seguiram-se a intervalos compêndios menos conhecidos e frequentemente menos criteriosos sobre homens e mulheres excepcionais de origem africana. Mas esse tipo de trabalho era, no geral, patética e excessivamente corretivo, ridiculamente elogioso em demasia; era apologética disfarçada de biografia. Um verdadeiro senso histórico se desenvolve lentamente e com dificuldade sob tais circunstâncias. Mas hoje, ainda que com o propósito último de justificação do grupo, a história tornou-se menos uma questão de argumentação e mais uma questão de registro. Há o desejo definido e a determinação de possuir uma história bem documentada, amplamente conhecida ao menos dentro dos círculos da própria raça, e administrada como uma tradição estimulante e inspiradora para as gerações vindouras.
Gradualmente, à medida que o estudo do passado do Negro saiu das vaguidades da retórica e da propaganda e se tornou sistemático e científico, três conclusões marcantes foram estabelecidas:
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¹ N. do T.: Assim no original. O nome correto da publicação é Três Américas
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Primeira, que o Negro foi, ao longo dos séculos de controvérsia, um colaborador ativo, e frequentemente um pioneiro, na luta por sua própria liberdade e progresso. Isso é verdade a um grau que torna ainda mais surpreendente o fato de não ter sido reconhecido antes.
Segunda, que, por serem considerados algo "excepcional", mesmo por amigos e simpatizantes, os Negros de talento e gênio foram injustamente dissociados do grupo, e o crédito do grupo perdido em consequência.
Terceira, que as origens raciais remotas do Negro, longe de serem o que a raça e o mundo foram levados a compreender, oferecem, quando vistas cientificamente, um registro de realização coletiva digna de crédito e, mais importante ainda, que essas origens são de vital interesse geral por seu peso sobre os primórdios e o desenvolvimento inicial da cultura humana.
Diante de verdades tão cruciais a documentar e a estabelecer, uma grama de fato vale mais que um quilo de controvérsia. Assim, o historiador Negro de hoje cava sob o ponto exato onde seu predecessor esteve e argumentou. Não há muito tempo, a Biblioteca Pública do Harlem abrigou uma exposição especial de livros, panfletos, gravuras e estampas antigas que simplesmente dizia, tanto ao cético quanto ao crente, ao erudito e ao escolar, ao negro orgulhoso e ao branco atônito: "Aqui está a evidência." Reunidos a partir das coleções em rápido crescimento dos principais colecionadores de livros e sociedades de pesquisa Negras, havia nessas vitrines materiais não apenas para a primeira escrita verdadeira da história Negra, mas para a reescrita de muitos parágrafos importantes de nossa história americana comum. Por mais lenta que seja, a verdade histórica não é exceção ao provérbio.
Aqui, entre as raridades da primeira Americana Negra, estava o Address to the Negroes of the State of New York, de Jupiter Hammon, edição de 1787, com a famosa frase do primeiro poeta Negro americano: "Se algum dia chegarmos ao Céu, não encontraremos ninguém para nos censurar por sermos negros, ou por sermos escravos." Aqui estava o manuscrito de poema de Phyllis Wheatley, de 1767, endereçado aos estudantes de Harvard, seus vigorosos encômios a George Washington e à causa revolucionária, e o elogio do Dia de São João, de John Marrant, proferido aos "Irmãos da Loja Africana n.º 459", pronunciado em Boston em 1789. Aqui também estavam os comentários de Vermont de Lemuel Haynes sobre a Revolução Americana e seus eruditos sermões à sua congregação branca em Rutland, Vermont, e os sermões do ano de 1808 do Reverendo Absalom Jones, da Igreja de São Tomé, na Filadélfia, e de Peter Williams, da Igreja de São Filipe, em Nova York, reitores episcopais pioneiros que se pronunciaram de maneira corajosa e influente sobre a Abolição do Tráfico de Escravos. Tais itens, e muitos outros, são mais do que meras curiosidades: eles educam qualquer mente receptiva.
Reforçando esses achados havia itens ainda mais raros de Africana e de interesse Negro estrangeiro: os volumes de Juan Latino, o melhor latinista da Espanha no reinado de Filipe V, titular da cátedra de Poesia na Universidade de Granada e autor de Poemas impressos ali em 1573 e de um livro sobre o Escorial publicado em 1576; os tratados em latim e holandês de Jacobus Eliza Capitein, natural da costa ocidental da África e graduado pela Universidade de Leyden; a célebre autobiografia de Gustavus Vassa, que forneceu tanta evidência, em 1796, ao ataque de Granville Sharpe contra a escravidão nas colônias britânicas; a exposição de Julien Raymond, feita em Paris, sobre as incapacidades legais das pessoas livres de cor na então (1791) colônia francesa do Haiti; e o Grito da Pátria, do Barão de Vastey, o famoso panfleto do secretário de Christophe que precipitou a luta haitiana pela independência. O efeito cumulativo de tais evidências de erudição e vigor moral é demasiado pesado para ser descartado como algo excepcional.
Mas mais pesada, sem dúvida, do que qualquer evidência de talento e erudição individual poderia jamais ser, é a evidência de colaboração importante e de iniciativa pioneira significativa no serviço social e na reforma, nos esforços rumo à emancipação racial, à colonização e ao progresso da raça. De páginas negligenciadas e manchadas pela ferrugem vem o testemunho dos homens e mulheres negros que se puseram ombro a ombro, em coragem e zelo, e frequentemente em paridade de inteligência e talento, com seus notáveis benfeitores brancos. Havia o já citado trabalho de Vassa, que auxiliou tão substancialmente os esforços de Granville Sharpe; o registro de Paul Cuffee, o pioneiro Negro da colonização, associado de maneira tão importante ao estabelecimento de Serra Leoa como colônia britânica para a ocupação de pessoas livres de cor na África Ocidental; a dramática e histórica exposição de John Baptist Phillips, africano graduado em Edimburgo, que obrigou, por meio de Lorde Bathurst, em 1824, o cumprimento dos artigos de capitulação que garantiam a liberdade aos negros de Trinidad. Há o registro do projeto pioneiro de colonização do Reverendo Daniel Coker, ao conduzir uma viagem de noventa expatriados à África Ocidental em 1820; dos esforços missionários de Samuel Crowther em Serra Leoa, primeiro bispo anglicano de sua diocese; e do trabalho de John Russwurm, um líder na obra e na fundação da Sociedade Americana de Colonização.
Quando consideramos os fatos, certos capítulos da história americana terão de ser reabertos. Assim como homens negros foram fatores influentes na campanha contra o tráfico de escravos, também estiveram entre os primeiros instigadores do movimento abolicionista. De fato, houve uma calmaria perigosa entre a agitação pela supressão do tráfico de escravos e o início da campanha pela emancipação. Durante esse intervalo, homens de cor foram muito influentes ao despertar a atenção de figuras públicas que, por sua vez, despertaram a consciência do país. Continuamente, entre 1808 e 1845, homens como Prince Saunders, Peter Williams, Absalom Jones, Nathaniel Paul, e os Bispos Varick e Richard Allen, fundadores dos dois ramos do Metodismo Africano, falaram com força e iniciativa, e homens como Denmark Vesey (1822), David Walker (1828) e Nat Turner (1831) advogaram e organizaram planos de ação direta. Isso culminou nas geralmente ignoradas, mas importantes, convenções de Pessoas Livres de Cor em Nova York, na Filadélfia e em outros centros, cujas plataformas e esforços são, para o Negro, de significado tão grande quanto as memórias nacionalmente cultuadas de Faneuil Hall e do Independence Hall. Depois, com a Abolição, vem a colaboração mais bem documentada e mais reconhecida de Samuel R. Ward, William Wells Brown, Henry Highland Garnett, Martin Delaney, Harriet Tubman, Sojourner Truth e Frederick Douglass, com seus grandes colegas Tappan, Phillips, Sumner, Mott, Stowe e Garrison.
Mas mesmo esse último grupo, que entrou nos holofotes da atenção nacional e internacional, e assim na comparação aberta com as melhores mentes de sua geração, o público muitas vezes considera como um grupo de analfabetos inspirados, ecos eloquentes de seus patrocinadores abolicionistas. Para uma verdadeira avaliação de sua capacidade e erudição, contudo, é preciso ir, com o antiquário, aos arquivos da Anglo-African Magazine, onde comparações página a página podem ser feitas. Seus escritos mostram que Douglass, McCune Smith, Wells Brown, Delaney, Wilmot Blyden e Alexander Crummell foram tão eruditos e versáteis quanto qualquer um dos publicistas renomados a quem estavam associados. Todos eles trabalharam internacionalmente pela causa de seus semelhantes; à Escócia, à Inglaterra, à França, à Alemanha e à África, levaram sua brilhante ofensiva de debate e propaganda, e com isso vieram instância após instância de notável reconhecimento estrangeiro, de fontes acadêmicas, científicas, públicas e oficiais. A Principia of Ethnology, de Delaney, recebeu acolhida pública de sociedades eruditas; os discursos de Pennington renderam-lhe um doutorado honorário de Heidelberg; a missão de três anos de Wells Brown lhe abriu as portas dos salões de Londres e Paris; e as turnês de Frederick Douglass tiveram recepções perdidas apenas para as de Henry Ward Beecher.
Depois dessa grande era de interesse e debate público, foi Alexander Crummell quem, já com a reação se instalando, primeiro organizou defensivamente as mentes Negras por meio da fundação da Academia Negra Americana, em 1897, em Washington. Um jovem de Nova York cujo zelo pela educação havia sofrido um duro golpe ao ser recusado no Seminário Episcopal pelo Bispo Onderdonk, ele foi apadrinhado por John Jay e enviado à Universidade de Cambridge, na Inglaterra, para sua formação e ordenação. Ao retornar, foi tomado pela ideia de promover a erudição racial, e a Academia foi o resultado final. Ela tem continuado, desde então, a ser um dos baluartes de nossa vida intelectual, embora infelizmente seus membros tenham tido de gastar boa parte de sua energia e esforço respondendo a detratores e refutando falácias populares. Somente aos poucos os homens desse grupo conseguiram voltar-se para a erudição pura. Tomando um rumo ligeiramente diferente, a Sociedade Negra de Pesquisa Histórica foi mais tarde organizada em Nova York, e conseguiu estimular a coleta, em todas as partes do mundo, de livros e documentos sobre o Negro. Ela também reuniu, pela primeira vez de forma cooperativa, em uma única sociedade, estudiosos africanos, das Antilhas e afro-americanos. Frutos diretos desse mesmo esforço são as extensas coleções particulares de Henry P. Slaughter, de Washington, do Reverendo Charles D. Martin, do Harlem, de Arthur Schomburg, do Brooklyn, e do falecido John E. Bruce, que foi o pioneiro entusiástico e visionário desse movimento. Finalmente, e mais recentemente, a Associação para o Estudo da Vida e da História Negra estendeu esses esforços a um projeto de pesquisa científica de grande realização e promessa. Sob a direção do Dr. Carter G. Woodson, ela manteve continuamente, por nove anos, a publicação do periódico erudito The Journal of Negro History, e, com a assistência e o reconhecimento de duas grandes fundações educacionais, sustentou pesquisas e publicou valiosas monografias sobre a história Negra. Quase acompanhando o passo do trabalho de erudição, tem havido o esforço de popularizar os resultados e de apresentar à juventude Negra, nas escolas, a verdadeira história das vicissitudes, lutas e realizações da raça. De modo que, hoje, em grande medida, a ambição da juventude Negra pode ser alimentada com seu próprio leite.
Tal trabalho está muito distante da controvérsia pueril e da mesquinha bravata com que o esforço pela história racial primeiro começou. Mas uma lição geral, tanto quanto racial, foi aprendida. Parecemos ter chegado, por fim, a compreender o que exige a verdadeira atitude científica, e a ver que a questão racial tem sido uma praga sobre ambas as nossas casas historiográficas, e que a história não pode ser propriamente escrita nem com viés nem com contraviés. O racialista caucasiano estridente, com suas teorias e pressupostos de superioridade e domínio racial, gerou, por sua vez, seu correspondente etíope – o amador precipitado e rabugento que tentou levianamente provar que metade dos gênios do mundo foram Negros e traçar a linhagem dos americanos do século dezenove até a Rainha de Sabá. Mas, felizmente, hoje há, de ambos os lados de uma causa verdadeiramente comum, menos a areia da controvérsia e mais o pó da escavação.
Naturalmente, um motivo racial permanece – legitimamente compatível com o método e o propósito científicos. O trabalho que nossos estudiosos da raça hoje consideram importante, eles o empreendem, de maneira bastante natural, para superar, em parte, certos obstáculos de desprestígio e omissão, por demais conhecidos para serem detalhados. Mas o fazem não apenas para que não sejamos injustamente privados do sustento espiritual de nosso passado cultural, mas também para que a história completa da colaboração e da interdependência humanas possa ser contada e reconhecida. Isso é especialmente provável de acontecer com a mais recente e a mais fascinante de todas as tentativas de abrir o passado Negro fechado, a saber, o importante estudo das origens culturais africanas. A intolerância da civilização, que é a raiz principal do preconceito intelectual, remonta a tempos distantes e deve ser corrigida em sua fonte. Fundamentalmente, ela surgiu daquela depreciação da África que brotou da ignorância acerca de seu verdadeiro papel e posição na história humana e no desenvolvimento inicial da cultura. O Negro tem sido um homem sem história porque tem sido considerado um homem sem uma cultura digna. Mas uma nova noção da realização cultural e das potencialidades das linhagens africanas surgiu recentemente, em parte por meio da influência corretiva do estudo mais científico das instituições africanas e da história cultural primitiva, em parte pela crescente apreciação da habilidade e da beleza, e em muitos casos da prioridade histórica, dos ofícios nativos africanos, e finalmente pelo notável reconhecimento que, primeiro na França e na Alemanha, mas agora de modo bem geral, a surpreendente arte das esculturas africanas tem recebido. Nessas fascinantes novas vistas, com horizontes limitados que se erguem em todas as direções, a mente do Negro saltou à frente mais depressa do que os lentos avanços da erudição ainda permitem com segurança. Mas não há dúvida de que aqui está um campo repleto das possibilidades mais intrigantes e inspiradoras. Já o Negro se vê contra um cenário reconquistado, em uma perspectiva que lhe dará orgulho e amor-próprio em pleno alcance, e fará com que a história lhe renda os mesmos valores que o passado estimado de qualquer povo proporciona.
Artigo publicado originalmente:
Locke, Alain [Ed]. (1925). The New Negro: An Interpretation. New York: Albert and Charles Boni.