Venezuela: berço do pan-americanismo

Venezuela: berço do pan-americanismo

Jayme C. Gil

Venezuela: berço do pan-americanismo

por JAYME C. GIL

Especial para Três Américas

Já se passou mais de um século desde o dia 5 de julho de 1811, data memorável em que o congresso revolucionário, reunido em Caracas, decretou a independência das províncias que constituíam a capitania geral espanhola de Caracas, formando assim a primeira nação soberana ibero-americana. Essa declaração de independência mal servia para estimular a resistência das autoridades espanholas e dos elementos crioulos que permaneciam fiéis ao governo peninsular, após a longa e sangrenta luta que se seguiu à ruptura formal entre a Espanha e sua mais antiga colônia na América continental.

Facilmente acessíveis são os detalhes do conflito entre os patriotas republicanos e os reacionários nativos e estrangeiros, em cujo auxílio trabalhava a natureza traiçoeira e indomável, mas nem mesmo neste breve esboço do período revolucionário poderia deixar de mencionar, entre as personagens de destaque, cujo trabalho e dedicação tanto contribuíram para o triunfo da causa da liberdade americana, a figura culminante de SIMÓN BOLÍVAR e os nomes inesquecíveis de MIRANDA, PIAR, BERMÚDEZ, PÁEZ, todos filhos da Venezuela, e PÉTION, Presidente do Haiti, que prestou a Bolívar a ajuda que lhe haviam negado os ingleses num momento de suprema aflição, enquanto a crescente República do Norte mantinha sua atitude característica de "espera expectante."

A sorte da Espanha foi decidida pela derrota completa do exército peninsular em Carabobo, em 1821, mas foi somente em novembro de 1823 que se rendeu a fortaleza de Puerto Cabello às vitoriosas tropas crioulas, desaparecendo enfim o último vestígio da autoridade que, por três séculos, vinha exercendo a Espanha na "pequena Veneza."

Enquanto isso, Bolívar, com Sucre, Flores e outros generais venezuelanos, havia levado o estandarte da liberdade até o Peru, consumando a república colossal sonhada pelo Libertador, essa Grã-Colômbia que, por sua própria magnitude, haveria fatalmente de despedaçar-se em elementos mais flexíveis e homogêneos. Em 1830, pouco antes da morte de Bolívar, tomou a Venezuela a iniciativa, declarando-se em Caracas a sucessão da confederação colombiana. Daí a nação, que ocupa uma superfície de mais de [...] 1.000.000 de quilômetros quadrados, dividida em 20 Estados, 2 Territórios e o Distrito Federal, e contando com uma população de três milhões de habitantes.

Depois de um quarto de século de luta contínua, não era de se esperar que as paixões engendradas pelo desejo de liberdade e pela desconfiança instintiva do povo para com os governantes se convertessem em completo e harmonioso acordo. Assim, pois, a Venezuela, que é por vários títulos digna de ser considerada pelas nações irmãs prima inter pares, o é também pela frequência e prontidão com que tem apelado ao arbítrio das armas em disputas políticas. Mas esse mesmo receio pela conservação da liberdade, esse mesmo espírito batalhador que sempre nos induziu a preferir uma guerra devastadora de resultado equívoco à paz que nos oferecesse um governo egoísta e tirânico, esse mesmo anelo com que o direito despojado tem procurado e sabido defender-se contra a força apoderada entre nós, tem nos levado a conquistar novas vitórias pelas nações fracas e indefesas.

Sozinha e sem poder contar com qualquer apoio estrangeiro, a Venezuela pôs fim a uma estéril e interminável contenda diplomática com a Grã-Bretanha quando nossas forças atacaram os agentes ingleses que se haviam atrevido a ocupar território que considerávamos nosso. Uma vez que lançamos a luva ao leão britânico, faminto por novas terras auríferas, os Estados Unidos, que até então haviam se mantido no isolamento que lhes aconselhara Washington, viram-se obrigados, em defesa de seus próprios interesses, segundo as declarações de Cleveland e Olney, a tomar as enérgicas medidas que resultaram na arbitragem dessa questão difícil e pouparam à Venezuela muitas vidas que se teriam sacrificado em defesa do direito e da justiça.

Pela atitude da Venezuela naquela controvérsia, a doutrina de Monroe, especioso manifesto de altruísmo impraticável e insubstancial, passou a ser, mediante a revisão de Cleveland, estatuto de uma sociedade de socorros mútuos. A intransigência de Castro na disputa financeira com Inglaterra, França, Alemanha e Itália sobre dívidas contraídas direta ou indiretamente pela Guerra da Independência – a Independência não só da Venezuela, mas de toda a América – embora nos tenha custado o bloqueio de nossos portos e a perda de nossa minúscula marinha de guerra em 1902, deu uma vitória pírrica aos aliados de então e foi um novo triunfo pela independência das pequenas nações que resistem aos atropelos das grandes. Naquela ocasião, e nas discussões subsequentes em Haia, a Grande Sócia do Norte, que já vinha se tornando nação credora, mostrou uma tendência a querer retirar-se da Sociedade Pan-Americana de Nações Iguais e Soberanas, parecendo reservar-se o direito de aprisionar uma nação devedora quando chegasse o caso. Mas a ação de Castro mereceu os elogios do Dr. Drago e de outros insignes estadistas latinos, e afirmou mais uma vez a imperiosa necessidade de que as nações ibero-americanas se aproximassem em defesa de tradições, ideais e interesses comuns.

Quais são esses interesses, basta declará-los em nome de uma nação. Na palavra Justiça se reúnem as aspirações da Venezuela e dos venezuelanos. Que se entenda também Paz, mas de todo modo procuramos Justiça, tanto para o mais humilde entre nós mesmos, quanto a temos buscado e exigido para nós todos, como nação humilde entre as prepotências da terra, mas orgulhosa e corajosa.

Não queremos mais território. Já temos um lugar que é todo sol, desde as praias quentes do Mar do Caribe e as margens do Orinoco até os cumes nevados dos Andes. Parece amanhecer o dia da paz interna, condição imprescindível para desenvolver nossas riquezas materiais e morais, em meio à Ordem e Progresso de que nossa vizinha meridional, com sobrada razão, tanto se orgulha. Enfim, no horizonte internacional divisa-se uma Colômbia maior e mais duradoura que a do Libertador, uma Colômbia que compreenderá todos os povos americanos que se inscrevam nos princípios do direito e da justiça, inviolada por considerações impertinentes de linhagem nem por arrogantes preconceitos da superioridade inerente desta ou daquela nação.

Que a "Revista das Duas Américas"¹ promova a extensão dessa Magna Colômbia até que abranja todos os povos do Novo Mundo, é o desejo da Venezuela, berço do Pan-Americanismo.


Publicado originalmente em:

GIL, Jaime C. Venezuela: cuna del americanismo. Três Américas, n. 1, ago. 1918.


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¹ N. do T.: Assim no original. O nome correto da publicação é Três Américas
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Este projeto é desenvolvido com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

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