Claude McKay
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Garvey como um Moisés Negro, de Claude McKay
Publicado originalmente em The Liberator, vol. 5, N.º 4, abril de 1922.
Garveyismo é uma palavra bastante desgastada na Nova York Negra¹. E é conhecida entre todos os Negros da América, e por todo o mundo, onde quer que haja grupos Negros conscientes de sua raça. Mas, enquanto Garvey é uma espécie de nome mágico para as massas Negras ignorantes, a intelectualidade Negra pensa que, por suas atitudes espetaculares – palavras grandiloquentes e bombásticas, vestes coloridas, títulos de nobreza anglo-saxônicos (Sir William Ferris, K.C.O.N.², por exemplo, seu editor, e Lady Henrietta Vinton Davis, sua organizadora internacional), seus comícios de massa e desfiles ao estilo rolo compressor, e seus lamentáveis empreendimentos comerciais –, Garvey turvou as águas do movimento Negro pela liberdade e atrasou a raça em muitos anos. Mas os seguidores de Marcus Garvey, que são legião e barulhentos como uma festa de tamborim no quintal, dão-lhe a coroa da liderança Negra. Garvey, afirmam eles, com sua Universal Negro Improvement Association e a Black Star Line, deu ao problema Negro uma publicidade universal e o tornou tão popular quanto os espetáculos de blackface. Onde homens como Booker T. Washington, o Dr. Du Bois, da National Association for the Advancement of Colored People, e William Monroe Trotter, da Equal Rights League, tiveram pouco sucesso, Garvey conseguiu pôr a Associated Press de joelhos toda vez que bradava. E suas palavras eram trombeteadas por todo o degenerado mundo de rosto pálido, trêmulo de medo diante do novo Negro.
Para quem conhece a Jamaica, terra natal de Marcus Garvey, o garveysmo sugere inevitavelmente o nome do bedwardismo.
O bedwardismo é o nome de uma seita religiosa de lá, puramente nativa em seus traços emocionais e externos e modelada segundo os batistas. É a verdadeira religião de milhares de nativos, que se autodenominam bedwarditas. Foi fundada por um gigante Negro analfabeto chamado Bedward, cerca de 25 anos atrás, que atribuía propriedades medicinais e curativas a um pequeno buraco arenoso à beira de um rio tranquilo que corria mansamente até o mar pela parte oriental da Jamaica. No início, o profeta Bedward era motivo de piada corriqueira nos jornais; mas quando milhares começaram a afluir para ouvir o gigantesco servo de Deus vestido de branco em seu batismo trimestral, e a polícia teve dificuldade em controlar as multidões, o Governo britânico na Jamaica se irritou. Bedward foi advertido e ameaçado, e até um pouco perseguido, mas seus milhares de seguidores permaneceram ainda mais firmes ao seu lado e o enriqueceram com grandes presentes de comida, roupas, joias e dinheiro. Assim, Bedward engordou em corpo e espírito. Começou a construir um grande edifício de pedra para o Deus do bedwardismo, que declarou não poder ser concluído antes da Segunda Vinda de Cristo. E, na plenitude de seus poderes, sentava-se em seu vasto quintal sob uma laranjeira, com a esposa e os filhos já crescidos, todos bons bedwarditas, ao seu redor, e distribuía palavras de sabedoria sobre sua religião e sobre questões da atualidade aos peregrinos que iam diariamente adorá-lo e obter uma garrafa de água do buraco sagrado. A notícia mais recente sobre o profeta foi a sua prisão pelo governo, por levar centenas de seus seguidores a vender todos os seus bens e reunir-se em sua casa em August Town para testemunhar sua anunciação; pois, em certo dia, ao meio-dia, ele havia dito, ascenderia aos céus sobre uma lua crescente. Os devotos venderam e doaram todos os seus pertences e afluíram a August Town, e a hora do dia marcado chegou e passou, com Bedward à espera em suas vestes, e seguiram-se dias e depois semanas. Então seu rebanho de ovelhas, agora transformado em uma multidão faminta, indigente e desesperada, uivou como hienas e lutou entre si até que o Governo interveio.
Pode ser que a notória carreira de Bedward, o profeta, tenha agido inconscientemente sobre a mente de Marcus Garvey e o levado a elaborar seus planos em linhas espetaculares semelhantes. Mas entre a mentalidade dos dois homens não há comparação possível. Enquanto Bedward era um enorme balão cheio de empáfia, carregado de ignorância e superstição, a mente de Garvey é, sem dúvida, muito enérgica e perspicaz, cercada de arame farpado pelas tradições imperiais da Inglaterra do século XIX. Seu espírito é revolucionário, mas seu intelecto não compreende o significado dos desenvolvimentos revolucionários modernos. Talvez tenha optado por não compreender; pode ter percebido que um confronto resoluto com os fatos tornaria pueris seus belos planos para a redenção do continente africano.
É bastante estranho que as ideias políticas de Garvey sejam tão curiosamente burguesas-obsoletas e fantasticamente utópicas. Pois ele não pertence àquela escola de líder Negro que existiu unicamente das migalhas pecuniárias da política republicana e da filantropia democrata, e que é absolutamente incapaz de compreender o ponto de vista Negro-proletário e a filosofia do movimento operário. Pelo contrário, a formação de Garvey é bastante industrial, pois nas Índias Ocidentais o problema Negro é peculiarmente econômico, e o preconceito é, à moda inglesa, mais de classe do que de raça. A chama da revolta deve ter se agitado em Garvey já em sua juventude, quando encontrou as portas do ensino superior fechadas para ele por pressão econômica. Pois, quando se tornou tipógrafo de ofício em Kingston, foi ativo na organização dos compositores tipográficos, e foi o líder da greve dos tipógrafos de lá, há 10 anos, durante a qual publicou um jornal de propaganda especial para os grevistas. A greve fracassou, e Garvey foi para a Europa, retornando à Jamaica depois de alguns meses no exterior para fundar sua Universal Negro Society. Fracassou nisso na Jamaica, onde uma preguiça tropical se instala como uma névoa quente sobre a ilha. Chegando a Nova York em 1917, atingiu o cinturão Negro como um ciclone, e ali lançou os fundamentos da Universal Negro Improvement Association e da Black Star Line.
Naquela época, a Guerra Mundial havia aberto um novo campo para os trabalhadores de cor. Havia menos discriminação racial nas fileiras do trabalho, e as portas das fábricas se abriam para o trabalhador Negro. Havia dinheiro de sobra. Garvey iniciou sua propaganda de "Volta à África" nas ruas do Harlem, e em poucos meses havia transformado seu órgão, o The Negro World, no semanário Negro melhor editado de Nova York. O lançamento do projeto da Black Star Line foi o grande acontecimento do movimento entre todos os garveystas, e teve um efeito eletrizante sobre todos os povos Negros do mundo – até mesmo sobre a intelectualidade Negra. Ganhou a primeira página da imprensa branca e rendeu boa matéria para os semanários liberais e para os mensários incorruptíveis. O Negro World circulava em 60.000 exemplares, e uma leitura de sua página de correspondência mostrava cartas que respiravam um intenso amor pela África, vindas dos confins mais distantes do mundo. O movimento pela redenção africana havia tomado forma definida na mente dos Negros ocidentais, e as respeitáveis organizações Negras de progresso foram sacudidas ao perceber o significado da "Volta à África". O dinheiro das ações da Black Star Line chegava aos borbotões, em centenas e milhares de dólares; alguns líderes Negros brilhantes foram atraídos para a organização, e a pequena imprensa Negra latia contra Garvey de todos os cantos do país, questionando sua integridade e pondo em dúvida suas motivações. E Garvey, à maneira de Hearst, retrucava com trovões suas ameaças aos críticos através do Negro World, e logo se viu envolvido em uma rede de processos judiciais. O aspecto mais intrigante da propaganda da "Volta à África" é o repúdio do líder a todos os fundamentos da luta econômica do trabalhador Negro. Nenhum Negro inteligente ousaria negar o efeito quase milagroso e a amplitude e o alcance mundiais dos métodos de propaganda de Garvey. Mas todos os que pensam amplamente sobre as condições sociais se surpreendem com a ignorância de Garvey e sua intolerância às ideias sociais modernas. Para ele, a Rainha Vitória e Lincoln são as maiores figuras da história, porque ambos libertaram os escravos, e a raça Negra jamais alcançará os cumes da grandeza até que tenha produzido tipos semelhantes. Ele fala da África como se fosse uma pequena ilha no Mar do Caribe. Ignorando todas as divisões geográficas e políticas, ele dá a seus seguidores a ideia de que aquele vasto continente de tribos diversas consiste em uma grande nação homogênea de nativos lutando pela liberdade e esperando que os Negros ocidentais venham ajudá-los a expulsar os exploradores europeus. Ele nunca exortou os Negros a se organizarem em sindicatos industriais. Apenas os exortava a arrecadar dinheiro, comprar ações de sua linha de navegação africana e ingressar em sua Associação Universal. E milhares de Negros americanos e das Índias Ocidentais responderam com entusiasmo.
Ele denunciou os socialistas e os bolchevistas por conspirarem para desmoralizar os trabalhadores Negros e trazê-los sob o controle do operariado branco. E no mesmo fôlego atacou a National Association for the Advancement of Colored People e seu fundador, o Dr. Du Bois, por incluir líderes e membros brancos. Diante de seus muito capazes colegas mulatos e octorões³ , defendia uma nação inteiramente Negra, a ser governada estritamente segundo o modelo inglês, com Marcus Garvey como chefe supremo.
Organizou uma Legião Negra e uma Cruz Vermelha Negra no coração do Harlem. A Black Star Line consistia em dois barcos inavegáveis, e a Negro Factories Corporation existia principalmente no papel. Mas parece que a única satisfação de Garvey em seu empreendimento comercial era apresentar visões grandiosas à sua multidão.
A prisão de Garvey pelas autoridades federais, após cinco anos de estupendo vaudeville, é um clímax adequado. Ele deveria sentir agora uma satisfação última pelo fato de ter sido um gerente de publicidade universal. Foi o maior popularizador do problema Negro, especialmente entre os Negros, desde A Cabana do Pai Tomás. Alcançou o sublime. Nos últimos dias, tornou-se mais falsamente eloquente em seus discursos exagerados sobre a Conquista Negra da África, e quando os seus partidários⁴ bradavam sua aprovação e clamavam por mais, em suas vestes suntuosas, ele erguia as mãos ao teto baixo numa pose estranha, sua imensa e disforme corpulência intimidando a multidão, e contava como os mistérios da magia africana lhe haviam sido revelados, e como os usaria para confundir o homem branco e expulsá-lo da África.
Notas
¹ Optou-se por manter, ao longo de toda a tradução, a grafia com maiúscula inicial "Negro" (bem como seus derivados, como "Negro-proletário"), refletindo o uso do próprio Claude McKay no original inglês.
² K.C.O.N. é uma sigla para Knight Commander of the Order of the Nile, título honorífico fictício criado pela própria Universal Negro Improvement Association de Garvey.
³ No original “mulatto and octoroon”. Octoroon é uma categoria da classificação racial norte-americana da época, designando pessoa com um oitavo de ascendência Negra [NT].
⁴ No original, "clansmen", grafado com "c" minúsculo. Há uma ambiguidade entre "integrantes de umgrupo/clã" (que preferimos traduzir como “partidários”) e uma possível alusão "Klansmen" (integrantes da Ku Klux Klan). O artigo foi publicado em abril de 1922, um pouco antes do polêmico encontro entre Garvey e lideranças da Ku Klux Klan.